Peguei a caneta, encarei o papel em branco e escrevi uma carta anônima contando tudo para minha irmã. Mais um dia se passou e aquela cena do meu cunhado com outra mulher não me saia do pensamento. Poderia não ter visto nada disso se não tivesse acompanhado os meus colegas da Faculdade ao Barzinho naquele dia. Logo que o avistei procurei me esconder para que não me visse e, não deu muito tempo, inventei uma desculpa e fui me embora.
Chegando em casa conversei com minha mãe sobre o ocorrido e ela recebeu aquilo como se fosse a coisa mais natural do mundo. Disse que os homens são assim mesmo e que logo esse “caso” terminaria. Ainda me olhou firme e disse que eu não abrisse a boca mais para falar sobre esse assunto.
Fiquei revoltada com a forma de minha mãe pensar e não podia conceber que minha irmã fosse traída daquela maneira. Sempre fomos muito unidas e sabia muito bem que ela não ficaria calada se fosse comigo.
Estava no quarto com os pensamentos turbilhando na minha cabeça. Acabara de dobrar no envelope a carta que havia escrito e sabia que quando minha irmã a recebesse ficaria transtornada, sofreria muito, mas sairia atrás das respostas dos porquês e, por mais que doesse, ela tomaria a decisão que fosse melhor para o seu coração. Ela não trocaria sua felicidade por um casamento de aparências isso eu tinha plena certeza. Amanhã estaria postando a carta no correio antes de ir para a Faculdade. Entregue a esses pensamentos acabei pegando no sono.
Quando dou por mim vejo que o dia já clareou e começo a escutar o movimento lá fora e me dou conta que o despertador não tocou. Pulo da cama e dou de cara com minha mãe pegando o envelope onde estava a carta que havia feito. Mais do que depressa corro para pegar e ela me pergunta asperamente:
- Para quem é a carta?
Virando o rosto digo que é uma carta de apresentação para uma vaga de estagiária em uma Editora.
Ela ficou meio desconfiada, mas como deve ter visto que não estava escrita à mão, acabou acreditando no que disse.
Corri para me arrumar e sai correndo para passar no correio mesmo que isso fosse me atrasar para as aulas.
Assim foi feito e passei o dia com o meu coração leve e na certeza de que tinha feito a coisa certa.
Sabia que minha irmã iria sofrer , mas não estaria sozinha porque eu estaria do lado dela. A mamãe, apesar de toda essa frieza, não deixaria de dar todo o apoio necessário. E essa sua frieza tinha uma explicação porque ela sofreu muito no seu casamento com o papai. Ela sabia que ele tinha uma amante, mas mesmo assim, ela sofria calada até que um dia ele a deixou – é por isso que não posso fazer vista grossa ao que vi – estaria repetindo a mesma história que já havia vivido.
*Escrito por Irene Moreira*
Participação 5a. Edição
Vinícius de Moraes
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